|
Se hoje sabemos muito sobre o Estresse
e a Ansiedade, tanto do ponto de vista comportamental quanto neuroquímico,
pouco sabemos ainda sobre seu aspecto principal ou primordial. Pouco
sabemos sobre esse tal estímulo desencadeador ou estressor. É
por aí onde tudo começa, ou seja, todas as reações
orgânicas, as atitudes, emoções, comportamentos,
alterações químicas fisiológicas, etc e
tal, começam sempre à partir do tal estímulo.
Conforme já comentamos, a Ansiedade e o Estresse não são
monopólio do ser humano. Se colocarmos um gato junto de um cão
num espaço fechado, depois de algum tempo esse gato estará
Esgotado; primeiro ele terá muita Ansiedade, entrará em
Estresse e, pela continuidade do estímulo agressivo (presença
do cão) se esgotará. Tendo em vista o fato do gato representar
para o cão uma ameaça menos agressiva que o cão
representa para o gato, o cão ficará esgotado depois do
gato. Nesse caso o cão representa para o gato um estímulo
agressivo: externo, por estar fora do gato e, inato, por fazer parte
da natureza biológica de todos os gatos.
Assim sendo, nos animais os estímulos para desencadear-se a Ansiedade
também podem ter duas origens: quanto à natureza eles
podem ser inatos, como vimos, do tipo gato tem medo de cachorro ou,
de outra forma, condicionados por treinamento e experiência. Quanto
à origem serão internos, caso se trate de instintos e
externos, quando for o caso do treinamento ou condicionamento.
No ser humano dito civilizado, esses estímulos também
costumam ter duas origens: podem ser externos e internos. Os estímulos
internos são oriundos dos conflitos íntimos. Os estímulos
externos, por sua vez, representam as ameaças concretas do cotidiano
de cada um.
Nossa capacidade de conhecer o mundo proporciona uma percepção
pessoal da realidade. Essa percepção pessoal da realidade,
diferente em cada um de nós, é chamada de procepção
da realidade. A principal idéia que devemos ter disso é
que a realidade será sempre representada intimamente e de acordo
com a personalidade de cada um.
Essa percepção pessoal da realidade engloba toda nossa
maneira de ver e sentir o mundo. Engloba não apenas a concepção
que temos das coisas que estão fora da gente, como é o
mundo objectual, como também os conceitos que temos dentro de
nós. Isso inclui a imagem que temos de nós mesmos, ou
seja, inclui nossa própria auto-estima.
Nossa auto-estima pode ser representada favoravelmente ou não,
de acordo com a tonalidade afetiva de cada um. Algumas pessoas se vêem
ótimos, outras se vêem péssimos. Assim sendo, a
idéia que nós temos de nós mesmos pode ser um estímulo
agressivo e causador de Ansiedade, caso seja uma idéia a nos
perturbar constantemente.
É por causa desses estímulos internos que a "Ansiedade
Humana" tem sido constante e às vezes patológica.
As ameaças externas não costumam ser tão constantes
quanto as internas. Vejamos o caso das ameaças concretas acerca
de nossa segurança pessoal, por exemplo: a ameaça de ser
assaltado, agredido, morto, etc. Possibilidades até existem,
nos grandes centros, mas normalmente não é continuada.
Há situações onde podemos nos sentir seguros, racionalmente
falando. Por outro lado, o estímulo interno não é
racional, é emocional. Isso quer dizer que podemos estar ansiosos
devido ao medo de sermos assaltados, agredidos, humilhados, demitidos,
etc., embora tais possibilidades sejam mínimas na prática.
Da mesma forma, podemos dizer que ficar doente seja uma ameaça
séria, um estímulo ameaçador importante. É
claro que é. Entretanto, podemos experimentar uma grande Ansiedade
devido ao fato de pensarmos que podemos ficar doentes. Esse estímulo
já é interno e não externo. Seria externo caso
houvesse, de fato, sinais de que nossa saúde foi abalada. Enquanto
houver apenas o medo de passar mal, de poder ficar doente, isso será
uma ameaça interna.
Ora, enquanto nos animais os estímulos agressivos externos aparecem
periodicamente, no ser humano a presença dos estímulos
internos pode ser continuada. Havendo uma afetividade problemática,
insegurança e pessimismo, vamos sentir ameaças internas
continuadamente. Vamos dormir com essas ameaças e acordar com
elas. Portanto, nessas circunstâncias podemos ter o Esgotamento.
Psicologicamente, para o ser humano a agressão depende mais do
agente agredido que do agente agressor. Isso quer dizer que o estímulo
para desencadear a Ansiedade depende, na maioria das vezes, mais da
sensibilidade da pessoa do que do estímulo propriamente dito.
Para uma pessoa claustrofóbica, estar num elevador não
significa simplesmente estar objetivamente num elevador.
Será a personalidade de cada um quem, de fato, atribuirá
valores e significados aos acontecimentos, tomando-os ou não
por estressantes, angustiantes, temerosos, ameaçadores e assim
por diante. Um Ego funcionando adequadamente é capaz de prover
a adaptação necessária entre o mundo externo e
interno, ou entre o indivíduo e seu ambiente, ou, finalmente,
entre o ser e seu destino. Sempre que houver fragilidade desse Ego,
haverá comprometimento na adaptação e desequilíbrio
entre o ser e o mundo ou, resumindo, haverá uma ansiedade crônica.Como
vimos acima, os estímulos capazes de proporcionar a Ansiedade
podem ser externos, denominados geralmente de circunstanciais e interpessoais,
representados pelo embate entre as forças opressoras do ambiente
e as condições da pessoa. Mesmo em se tratando de estímulos
externos, provenientes do mundo objetivo, sua natureza agressiva poderá
ser mais traumática ou menos traumática, dependendo da
conotação à ele atribuída por nossa pessoa.
Os estímulos podem ainda ser internos, denominados "intrapsíquicos",
onde se situam os conflitos pessoais da pessoa normal ou os transtornos
afetivos e traços ansiosos de personalidade nas pessoas mais
problemáticas.
A existência dos conflitos pode ser considerada fisiológica
na espécie humana, ou seja, eles existem em todos nós
e parecem ser essenciais ao desenvolvimento da Ansiedade. Em nosso cotidiano,
sem termos plena consciência, experimentamos um sem-número
de pequenos conflitos interpessoais ou intrapsíquicos; as tensões
entre ir e não ir, fazer e não fazer, querer e não
poder, dever e não querer, querer, poder e não dever,
a assim por diante.
Finalmente, devemos entender que os estímulos necessários
para determinar a Ansiedade são provenientes de duas origens:
são externos, quando se devem à sucessão de acontecimentos
de nossa vida aos quais temos que nos adaptar e internos, quando se
originam dentro de nós mesmos, de nossos medos, nossos pensamentos
negativos, nossas inseguranças. No ser humano os estímulos
produtores de Ansiedade costumam ser, predominantemente, de origem interna
e pessoal, decorrentes da valoração individual que a pessoa
atribui à sua realidade e aos fatos com os quais se depara.
________________________________________________________________________________________________________
BALLONE, G J - Estresse, in. PsqWeb, programa de Psiquiatria Clínica
na Internet,
http://meusite.osit.com.br/ballone/,
Campinas, SP, 1999.
|